RENATO SANTOS

2013 - Entrevista Exclusiva com Renato Santos

Por Rafaella Oliveira

 

Renato Santos tem sido um dos grandes destaques da temporada e, ao lado de Walter Longo, o novo conselheiro conseguiu conquistar muitos fãs do programa. 

 

Já considerado por muitos como um dos melhores conselheiros que já estiveram ao lado de Justus e Longo, Renato Santos nos concedeu essa entrevista exclusiva e conta que está feliz e agradecido com a boa repercussão de seu trabalho, mas que é exigente consigo mesmo. Ele admite que está satisfeito em dividir a mesa com Roberto e Walter e diz, sobre os comentários de sua participação: "prefiro analisar esta repercussão depois do episódio final, quando a avaliação do público poderá considerar o conjunto das participações".

 

Para Renato é possível equiparar sonhos pessoais aos objetivos profissionais, "mas acredito que de uma maneira diferente da que pensa a maior parte das pessoas", e ele diz como, nesta entrevista. 

 

Ele conta, ainda, sobre sua trajetória profissional, comenta sobre como foi que chegou até o Aprendiz e como se preparou para participar do programa e muito mais! Confira a entrevista.

(Daniel Simões e Julio Silveira, adaptada por Aprendiz Coelhocratas) Renato, conte para nós sua trajetória profissional e como surgiu o convite para ser conselheiro do Aprendiz.

(Renato Santos) Sou administrador de empresas e me tornei empresário ainda na faculdade depois de ter cursado o Empretec, maior programa de formação de empreendedores do mundo (desenvolvido pela ONU e ministrado no Brasil pelo SEBRAE). Logo depois do curso, montei uma empresa de análise de mercado em Brasília. Este negócio foi comprado por um player nacional, e me tornei diretor da nova empresa no Centro-Oeste.
Mais tarde vendi minha participação e montei um segundo negócio na área de logística e distribuição, e posteriormente me tornei investidor em outros ramos (contact center, fábrica de software e rede de restaurantes). Participo também de um fundo de investimento em conjunto com outros empresários, buscando oportunidades em que possamos acelerar negócios com alto potencial de crescimento e retorno, com algumas participações já aportadas.
Desde o início, desenvolvi a atividade de consultor e palestrante em paralelo à gestão das empresas. Sempre gostei muito e esta atividade acabou tomando a maior parte do meu tempo; hoje não tenho função em nenhuma das empresas das quais sou sócio, atuando apenas no conselho – procuro ser um acionista ativo, presente e influenciar de forma positiva na gestão.
Como consultor, meus principais clientes são o SEBRAE e a UNCTAD (Conferência das Nações Unidas para o Comércio e Desenvolvimento, órgão do sistema ONU). Junto ao SEBRAE, atuo principalmente na concepção de soluções de consultoria e treinamento, que depois são aplicadas pela rede de consultores do SEBRAE em todo o Brasil. Já na UNCTAD, atuo principalmente na implantação de soluções e programas em outros países, e até o momento desenvolvi trabalhos em 12 países diferentes na América Latina, Europa, África, Oriente Médio e Ásia – atualmente, estou envolvido em programas na Suíça, na Rússia e na Índia.
O convite para participar do Aprendiz foi feito ao SEBRAE – o Roberto e os diretores do programa queriam avaliar também a capacidade empreendedora e de gestão dos aprendizes, e o SEBRAE é a instituição especialista em pequenos negócios no Brasil; a continuidade da parceria que já existia antes era natural. A partir daí, o SEBRAE me indicou como Conselheiro nesta temporada.
Recebi o convite com orgulho e tenho gostado muito da experiência.

(Antonio Rafael Almeida) Gostaria de saber, a partir da vossa atuação na formação de líderes e empreendedores, se é possível equiparar sonhos e objetivos de vida aos objetivos profissionais? Qual a melhor maneira para isto?

(Renato Santos) A resposta, sem nenhuma dúvida, é sim: é perfeitamente possível equiparar sonhos pessoais aos objetivos profissionais – mas acredito que de uma maneira diferente da que pensa a maior parte das pessoas.
Crescer profissionalmente fazendo o que se ama é algo relativamente raro, que depende de muitos fatores como a habilidade e a fertilidade do mercado. Gostar de uma atividade não o tornará automaticamente o maior especialista nela, e nem fará com que a demanda se altere – perceba que não estou afirmando que não é possível, apenas que é raro.
Por outro lado, se invertermos esta equação veremos que é bem menos raro crescer amando o que se faz: os empreendedores são pessoas capazes de encontrar uma atividade com alta demanda potencial e onde tenham real capacidade de fazer a diferença. A partir daí, envolvem-se com ela de tal forma que se apaixonam pelo negócio, ou pelo trabalho. Acredito que aí sim é possível conciliar os sonhos pessoais aos objetivos profissionais, sentindo verdadeiro prazer no que se faz.
Mas isso só é possível desde que o planejamento da sua carreira ou do seu negócio seja feito de forma desapaixonada e com senso estratégico. Sonhos são ótimos para nos tirar da cama de manhã com muito ânimo para enfrentar o dia, mas para fazer o dia render é preciso trabalhar sobre planos, metas e métodos bem traçados, explorando oportunidades promissoras: não acredito ser possível se manter feliz em uma atividade que, mesmo muito bem-feita, não traga resultados condizentes.
Ainda com relação a este assunto, mas em outra abordagem, às vezes converso com alguns colaboradores do meu grupo e noto preocupação com o tempo dedicado ao trabalho – aqui trabalha-se muito, tenho orgulho de dizer. O nível de exigência das empresas de hoje não deixaria tempo para outras atividades, como esporte, lazer ou até mesmo os relacionamentos pessoais. É inegável que o mundo corporativo avançou sobre o tempo pessoal de todos nós, e hoje estamos virtualmente trabalhando o tempo todo com nossos celulares e tablets conectados em qualquer lugar. Minha resposta costuma ser a frase de um homônimo famoso, também de Brasília e que admiro – Renato Russo cantava que “disciplina é liberdade”, e não faltam exemplos, no meu grupo ou em quase todas as empresas, de pessoas que conseguem ser excelentes profissionais e manter uma vida pessoal rica e interessante graças à disciplina com que administram seu tempo. Acredito realmente nisso e tento agir assim.


(Daniel Simões e Aderson Bezerra, adaptada por Aprendiz Coelhocratas) Quem é no universo corporativo o seu "mestre", em quem você se espelha? Qual sua referência? Qual o seu escritor preferido?

(Renato Santos) Procuro seguir a crença de que o mestre sempre aparece quando o discípulo está pronto – ou seja, se você está pronto para aprender e tem foco nisso, até situações banais do cotidiano podem trazer grandes ensinamentos: que exemplo pode ser melhor do que formular a lei da gravidade depois que uma maçã lhe cai à cabeça?
Por este motivo, não tenho um único mestre no mundo corporativo, procuro aprender nas diferentes situações e pessoas com as quais convivo. No Aprendiz, tenho aprendido muito com os próprios aprendizes, com as equipes que trabalham nos bastidores e com o feedback do público (do qual o blog Coelhocratas é uma das principais fontes).
Especialmente, tenho aprendido muito com o Roberto – um empreendedor nato e bastante ousado, que conhece o negócio profundamente e lidera o mercado publicitário brasileiro há muitos anos – e com o Walter, um trend hunter visionário que conjuga incríveis velocidade e profundidade de raciocínio com um nível de exigência de qualidade que dificilmente se vê.
Mas para responder à pergunta, há algumas referências que atualmente procuro seguir com atenção. Como empreendedor, admiro o prefeito de Nova Iorque Michael Bloomberg. Ele foi capaz de construir uma indústria quase que inédita ao conjugar imprensa, telecom e finanças na montagem do seu negócio (algo pelo que posteriormente Steve Jobs passou a ser reverenciado, ao mudar o mercado de música conjugando soluções de indústrias diferentes no iPod e na iTunes). Mas além disso, mesmo do alto de uma das maiores fortunas do mundo, Bloomberg mudou sua carreira e passou a se dedicar ao serviço público – hoje é admirado como um dos mais competentes prefeitos dos EUA (algo similar ao que posteriormente fez Bill Gates, ao deixar a carreira de empresário na Microsoft para se dedicar à filantropia e ao bem público). Ou seja, Bloomberg foi pioneiro em atividades pelas quais os dois gênios empreendedores são tão admirados – e ele ainda está vivo, e na ativa.
Quanto ao escritor preferido, gosto muito do inglês Jeffrey Archer, mas ele não é autor de negócios – apesar de suas obras trazerem muitas lições corporativas. No universo empresarial, atualmente tenho prestado muita atenção ao que escrevem o americano Eric Ries e o indiano Ash Maurya. Ambos empreendem no Vale do Silício e estão na vanguarda do processo organizacional e da modelagem das startups da região. Suas ideias são contemporâneas, práticas e traduzem o espírito dos empreendedores digitais, e têm sido testadas com sucesso em algumas das empresas mais bem-sucedidas dos EUA, como o Facebook, por exemplo.

(Celma Sammarco) Renato, explique a importância do Feedback para o crescimento de um profissional.

(Renato Santos) Muito mais importante que o feedback (que é externo, e portanto não depende do profissional) é a forma como se lida com ele. O bom profissional precisa ser capaz de ouvir – ou interpretar o que não é dito – e processar da melhor forma. Não há receita: às vezes, o feedback vem de forma fraca e disfarçada, mas entendê-lo e implementá-lo pode fazer a diferença entre o sucesso e o fracasso. Outras vezes, ele vem de forma direta e conclusiva – e o bom profissional precisa justamente ser resiliente para manter o curso nos seus objetivos e forma de trabalhar, por não concordar com a informação recebida.
Por isso, a melhor forma de lidar com o feedback é ter sensibilidade para captá-lo e discernimento para avaliar o que deve ser implementado ou não. O perfil ideal se completa ainda com a velocidade em se colocar os inputs aceitos em ação, alterando rapidamente a forma de agir.

(Aderson Bezerra, complementada por Aprendiz Coelhocratas) Renato, no seu dia-a-dia profissional, qual defeito você não tolera em um subordinado seu? E quais são as qualidades que busca nos profissionais que trabalham para/com você?

(Renato Santos) Ninguém é imune a erros, e por isso o único defeito intolerável em um subordinado, sócio, parceiro ou fornecedor é o que não se corrige.
O defeito que não se corrige é aquele que se repete mesmo depois de a pessoa ter sido alertada para os problemas daquela prática ou comportamento. A mensagem precisa ser clara: todos podem errar, mas quando descobertos os erros, eles precisam ser corrigidos e não se repetir mais. Melhor ainda se o profissional tiver a capacidade de aprender tanto com seus erros quanto com os erros dos outros: isso vai amadurecê-lo mais rápido e torná-lo mais valioso.

(Endrik Raphael e Lenise Mietto) O que você está achando da boa repercussão do seu trabalho no programa?

(Renato Santos) Fico feliz e agradecido, mas sou bastante exigente comigo mesmo e vejo oportunidades de melhoria que pretendo aproveitar. Além disso, também prefiro analisar esta repercussão depois do episódio final, quando a avaliação do público poderá considerar o conjunto das participações. Mas preciso admitir que fico muito satisfeito ao dividir a mesa com dois profissionais como o Walter e o Roberto, que admiro há anos, e receber uma boa avaliação pelo trabalho da parte deles, da equipe do programa e do público. Aliás, agradeço aos Coelhocratas pelas análises e comentários, que têm sido muito úteis para que eu me prepare melhor para cada episódio.


(Luiz Gustavo Cristino e Aderson Bezerra, adaptada por Aprendiz Coelhocratas) Você considera o fato de não conhecer os aprendizes tão bem quanto Roberto Justus e Walter Longo (que acompanharam a jornada de praticamente todos eles nas temporadas anteriores) um fator positivo, negativo, ou sem relação com o momento de avaliá-los? Você tem algum receio de fazer esta avaliação?


(Renato Santos) É preciso lembrar que esta temporada trouxe mais chances de conhecer os aprendizes previamente do que qualquer outra: pude assistir a todas as participações dos 16 aprendizes antes que os encontrasse pela primeira vez. Roberto e Walter também puderam rever os programas anteriores para relembrar as principais características de cada candidato – e Roberto os entrevistou pessoalmente ao convidá-los para participar do programa. Além disso, ao acompanhar as provas tive a oportunidade de observar de perto o desempenho das equipes em cada tarefa, e tudo isso trouxe subsídios muito importantes para fazer uma boa avaliação.
Não tenho receio de avaliar, até porque este é um dos principais papéis de um empreendedor – avaliar permanentemente, fornecer feedback claro e cobrar mudanças são imprescindíveis para construir um bom time, que leve o negócio ao sucesso. Por outro lado, procuro ser muito cuidadoso em função do papel para o qual fui convidado e, especialmente, dos aprendizes – não podemos nos esquecer que os 16 competidores são pessoas corajosas e que se colocaram em situações de extrema exposição pessoal na busca por um grande objetivo; isso deve ser sempre motivo de admiração e respeito.

(Jadre Junior) No Aprendiz, ao contrário do que acontece na vida profissional fora do programa, o desempenho dos participantes é analisado em tarefas que duram pouco tempo, e não continuamente. Sendo assim, você acredita que o Aprendiz consiga avaliar bem as características e competências dos participantes e que quem vencerá realmente será alguém que tem o perfil desejado pelo Roberto Justus? Ao seu ver, quais são as principais diferenças entre o Aprendiz e a vida profissional "comum"?

(Renato Santos) O Aprendiz é, na realidade, um grande processo seletivo para uma vaga corporativa, pela qual competem os 16 candidatos em 15 atividades que visam testá-los para o cargo. Neste sentido, considero o Aprendiz  muito mais completo em termos de avaliar as competências dos participantes do que um processo seletivo comum.
Explico: nas minhas empresas por exemplo, a contratação de um funcionário normalmente envolve uma triagem curricular, seguida por entrevistas via fone feitas pela área de RH. Depois disso e dependendo do cargo, uma ou mais dinâmicas de grupo e finalmente, entrevistas com alguém do RH e com o gestor direto do futuro contratado. O passo final é uma entrevista comigo e meus sócios, e posso demandar outras se necessário – mas por mais que eu entreviste, avalie as etapas anteriores e converse com o candidato e suas referências, nunca seria possível dispor de tanta informação sobre o perfil quanto temos dos aprendizes.
Além disso, estes não são quaisquer profissionais: os 16 foram selecionados em uma “peneira” que chegou a alcançar mais de 100.000 candidatos por temporada, e eles ainda foram selecionados entre os 120 aprendizes que participaram das 8 edições anteriores e não venceram – ou seja, eles já chegaram vitoriosos em uma competição dura, e ao longo das 15 tarefas estão sendo ainda mais testados. Por tudo isso, estou confiante que a decisão final escolherá o mais preparado entre os 16 participantes.
Com relação à comparação entre o Aprendiz e a vida cotidiana das empresas, há muitas diferenças – as principais oriundas do aprofundamento de dificuldades como a pressão do tempo, a competição com os pares, a escassez de recursos e a exposição das pessoas. Mas há, principalmente, muitas semelhanças que permitem tomar o Aprendiz como um laboratório da vida corporativa, e que por isso nos levam a observar bem cada participante e decidir com bom nível de informação.


(Bianca Portes) Renato, no programa eu vejo uma valorização daqueles que defendem suas ideias com grande ênfase, ênfase que às vezes beira ao descontrole como já reconhecido na própria sala de reunião por vocês conselheiros e o Justus. Porém fico com a dúvida: um líder que toma uma sucessão de más decisões, extremamente enfático e que não assume os erros dessas tomadas de decisões não fadaria uma empresa ao fracasso? Se sim, qual o limite e quais outras qualidades são necessárias a esse perfil enfático na sua opinião.

(Renato Santos) A capacidade de ênfase e o protagonismo pessoal são extremamente importantes para um líder. Há líderes muito bem-sucedidos e que são extremamente discretos, quase tímidos – mas são a exceção, e normalmente compensam esta limitação com outras qualidades que se destacam muito além do normal. Por outro lado, errar continuamente é imperdoável mesmo para quem defende bem seus pontos de vista, porque resultados são a moeda quando falamos de negócios.
No Aprendiz, eventualmente fomos forçados a escolher entre profissionais enfáticos ao vender suas opiniões e entre participantes que discordaram, mas não conseguiram argumentar o suficiente para prevalecer. Minha opinião pessoal é que a boa ideia é apenas uma ideia até ser colocada em prática – se não o foi, não tem valor e não existe mérito do autor. Por outro lado, a execução errada da ideia, mesmo quando certa, também tira a credibilidade do autor e/ou do líder.
Nos conselhos que dei ao Roberto até agora, procurei me posicionar a favor dos candidatos que mais se expuseram e melhor lidaram com o feedback recebido. Por lidar bem com o feedback não me refiro à reação naquele momento, mas à maneira como o aprendiz foi ou não capaz de alterar seu comportamento em função do que ouviu – e isso é algo que demanda mais exposição em novas tarefas.
Os aprendizes que não se expõem tanto acabam não se sujeitando a este tipo de avaliação – mas isso cria um outro problema, já que como Conselheiro eu não me sentiria à vontade para recomendar a permanência de um participante cujo comportamento não pude observar bem. Tenho procurado me guiar por estes e alguns outros princípios nas recomendações que faço ao Roberto – que obviamente, também recorre à opinião do Walter e principalmente à sua, de empreendedor experiente e que sabe bem o que funciona ou não nas suas equipes.


 

 

(Brenno Tavares) Renato, na sua opinião, o que um candidato precisa, acima de tudo, para ganhar o Aprendiz?

(Renato Santos) Energia e foco são fundamentais. Não é possível vencer um desafio como este sem uma dose incomum de energia para o trabalho e foco nas atividades – é preciso lembrar que esta edição está sendo gravada em menos da metade do tempo das anteriores, justamente para desafiar ainda mais os aprendizes. Os comentários dos próprios participantes mostram que isso está acontecendo.
Além disso, iniciativa, inconformismo e criatividade também são importantes. São estas qualidades que vão permitir o desenvolvimento de ideias inovadoras e incomuns, que mostrarão o valor do profissional. As tarefas são diversas o suficiente para permitir analisar estes itens com profundidade, e mais de uma vez para cada participante.
Capacidade de execução e relacionamento também são valores que fazem a diferença. Com o tempo tão curto para cada atividade, a criatividade em si não é suficiente para a vitória: é preciso saber implementar os projetos e transformá-los em resultados. O relacionamento com pares, fornecedores e clientes também é importante, porque garante o comprometimento que se torna economia de tempo e aumento de qualidade.
Finalmente, é preciso demonstrar capacidade de liderança. Em nenhum momento o aprendiz fica mais exposto do que quando é líder, e não saber transformar este desafio em oportunidade pode ser fatal para o sonho de vencer o programa. Cada um tem seu estilo de liderança, mas ele precisa ser adaptado para cada situação e cada equipe; saber fazer isso garante uma importante vantagem competitiva ao participante.


 

2014 - Entrevista Exclusiva com Renato Santos

Por Rafaella Oliveira

 

Renato Santos retornou ao Aprendiz Celebridades como conselheiro de Roberto Justus. Depois de uma participação muito elogiada na temporada anterior, o desafio de aconselhar Roberto em uma edição com 15 celebridades o deixou entusiasmado: "... a escolha de tarefas que continuaram ligadas ao mundo corporativo me deixou à vontade para analisar dentro da minha esfera de conhecimento, e foi essa a expectativa que os diretores e o Roberto me colocaram.".

 

 

Ele comenta sobre as polêmicas da final - a quase desistência de Amon Lima -, por exemplo, o que deve ser levado em consideração em um bom profissional e diz que o Aprendiz é a reunião de 3"Ps" - e você descobrirá quais são. 

 

Em uma entrevista que mescla nosso programa favorito e o mundo dos negócios, Renato Santos esclarece dúvidas sobre o Aprendiz e sobre empreendedorismo. 

 

Confira!

 

Agradecemos pela atenção sempre, Renato! 


(Mailson Eduardo) Renato, em uma das salas de reunião do Aprendiz Celebridades você disse que os grandes empreendedores que fazem diferença de verdade são capazes de colocar o mercado a serviço da sua visão. Gostaria de saber de você um exemplo bem definido de como esses empreendedores fazem isso.

 

​​(Renato Santos) ​​Todos sabemos que as necessidades do consumidor são o verdadeiro eixo ao redor do qual o mercado se movimenta; o que existe são formas diferentes de atendê-las. Geralmente, as empresas se organizam em torno de um tipo de solução vencedora, e concebem uma “indústria” – um conjunto de empresas que provê soluções similares para essas necessidades ou problemas. O tempo passa, e o mercado deixa de ser formado por empresas que resolvem problemas para ser povoado por empresas que fornecem um dado tipo de solução – ou seja, elas acabam se distanciando da motivação original que leva o consumidor a adquirir seus produtos ou serviços.

 

O que os grandes empreendedores fazem é manter uma conexão inabalável com as necessidades originais dos consumidores. Eles fazem isso com tanta força e naturalidade que são capazes de conceber segmentos novos de mercado, ao encontrar soluções simples para as necessidades ou problemas. O exemplo hoje já clássico é o lançamento do iPod pela Apple de Steve Jobs, subvertendo a lógica da indústria fonográfica. Exemplos mais antigos incluem o conceito de fast-food popularizado pelo McDonald’s de Ray Kroc (e a “mágica” de ter a sua refeição pronta antes mesmo que você a escolha); ou a prevalência do software sobre o hardware concebida pela Microsoft de Bill Gates (com a inclusão do sistema operacional virtualmente de graça nos PCs da IBM, décadas atrás). Outros exemplos mais modernos incluem a concepção do modelo low-cost de voar por companhias aéreas como a RyanAir e a Easy Jet (entre outras), até chegarmos a apostas ousadas como o AirBnB e sua visão de mudança no conceito de hospedagem com a “Bélo”. E, é claro, a esta percepção tão aguçada das necessidades do consumidor junta-se a ousadia e capacidade realizadora para transformar a visão em realidade.

 

 

(Clariana Albuquerque , adaptada pelo Coelhocratas e Elisangela Moreira Luciano) Renato, como surgiu o convite para você ser conselheiro do  Aprendiz Celebridades? Como você encarou o desafio? Se surpreendeu? Você ja está confirmado para a próxima temporada?

 

​​(Renato Santos) ​​Fiquei muito surpreso com o convite. Na temporada anterior participei por indicação do SEBRAE, instituição à qual sou ligado há 21 anos e que patrocinou aquela edição. Nesta temporada o SEBRAE não foi patrocinador, e por este motivo eu não esperava ser convidado.

Receber o convite da direção do programa me deixou muito entusiasmado. De início, não me senti apreensivo em razão da experiência no ano passado. À medida em que a estréia foi se aproximando e passei a estudar melhor os participantes, fiquei preocupado por tratar-se de pessoas públicas, muitos deles com grande experiência na televisão. No entanto, a escolha de tarefas que continuaram ligadas ao mundo corporativo me deixou à vontade para analisar dentro da minha esfera de conhecimento, e foi essa a expectativa que os diretores e o Roberto me colocaram.

Quanto à próxima temporada, um eventual convite para participar dependerá dos objetivos do programa, da adequação do meu perfil a eles e ao tipo de análise que o Roberto desejar para suas decisões.

(Luana Albino) Renato, você teve uma receptividade muito grande pelo público, você esperava se destacar como conselheiro ou isso te surpreendeu ?

 

​​(Renato Santos) ​​Surpreendeu e surpreende sempre que penso nisso. Pessoalmente não sou uma pessoa extrovertida e, ao receber o convite pela primeira vez, temi não me sair bem em função da timidez ou do receio com o novo formato. As reações positivas – especialmente dos Coelhocratas, grupo do qual gosto muito – me encorajaram bastante e me ajudaram a ficar à vontade no papel de Conselheiro. Ajudou também a recepção da equipe de produção, dos colegas com quem trabalhei (Walter e Cacá), dos diretores do programa e principalmente, do Roberto – que sempre interagiu comigo de forma positiva e encorajadora, mesmo quando decidia de forma contrária aos conselhos que ofereci.

(Diego Brandão Nunes) Renato, você com o Aprendiz entrou para o mundo da Televisão, é uma figura conhecida já, começou com participações nos programas, tornou-se conselheiro e ganhou grande destaque, ou seja, você vem em uma ascendência na televisão, sendo cada vez mais reconhecido e admirado. Sobre isso, você pensa em novos projetos no futuro com a televisão ou qualquer outro meio de comunicação que possibilite a você interagir e ensinar o grande público? Se sim, o que seria?

 

​​(Renato Santos) ​​A TV é um veículo poderoso, e o Aprendiz é um programa com uma equipe maravilhosa. Tudo isso me deu grande prazer em trabalhar e possibilitou muito aprendizado. Por outro lado, reconheço que ainda teria que evoluir muito e em vários aspectos para me candidatar a novos projetos.

Com relação a outros meios de comunicação, atuo há pouco mais de um ano nas rádios CBN, Band News e Jovem Pan SP com o Minuto SEBRAE. Neste programa apresentado semanalmente, forneço dicas sobre gestão de negócios e oportunidades; sobre soluções SEBRAE para as necessidades dos pequenos negócios; e respondo às dúvidas dos ouvintes. Gosto muito da atividade, que tem uma conexão forte com a realidade das PMEs brasileiras. Além disso, antes do Aprendiz tive algumas outras experiências (uma na Record em 2012, em algumas edições do programa “Hoje em Dia”; e outra na Rede Globo em 2010, no quadro “Negócio Fechado” do programa “Caldeirão do Huck” – ambas como consultor do SEBRAE).

A exposição obtida com o trabalho no Aprendiz aumentou o interesse e a audiência das minhas palestras, uma atividade que exerço há vários anos e da qual gosto muito, e que em outra escala já permitia uma conexão com o público empresarial e corporativo.

(Vinícius D'Ávila) Renato, como você avalia a percepção do público? Nessa temporada tivemos o terceiro conselheiro, vocês levam em consideração o que o público pensa? Não acha que por se tratar de celebridades já conhecidas, umas mais outras menos, esse critério pode afetar diretamente na aceitação do público de um ou outro participante e consequentemente, interferir na decisão do "terceiro conselheiro"?

 

​​(Renato Santos) ​​As perguntas do terceiro conselheiro foram analisadas com muita atenção no decorrer do programa. O Ricardo Justus, diretor responsável por essa interação, selecionava as principais questões para ir ao ar – mas sempre trazia ao Roberto muitas outras que funcionavam como termômetro da opinião e das percepções dos espectadores do Aprendiz. Além disso, as respostas dos Aprendizes possibilitavam uma leitura melhor do seu comportamento, desempenho e intenções – e sem dúvida eram consideradas no processo de decisão do Roberto, e de aconselhamento tanto meu quanto do Cacá.

Com relação à influência da popularidade prévia (ou maior simpatia de um participante sobre os outros) na avaliação do terceiro conselheiro, imagino que isso realmente possa ocorrer. No entanto, estávamos no Aprendiz Celebridades – a conexão com o público era um pré-requisito para participar do programa. Neste sentido, entendo ser lícito que esse critério influencie a avaliação do público. Quanto aos Conselheiros, o Roberto sempre exigiu que nossas observações e avaliações se ativessem ao desempenho durante as tarefas, e não tenho dúvidas de que ele também pensou e agiu tendo a performance, perfil e personalidade apresentados dentro do programa como únicos critérios de avaliação.

(Flávia Cabral) Renato, muitas pessoas gostaram bastante da frase que você disse para o Amon no final do Aprendiz Celebridades. Talvez ela tenha sido o elemento essencial para a continuidade do Amon no programa. Você possui mais alguma frase que gosta e que te serve de inspiração?

 

​​(Renato Santos) ​​Eu pessoalmente também gosto muito dessa frase, que conheci praticando triatlo e que já me inspirou em muitos momentos. Tenho várias frases a que recorro como fonte de inspiração, mas a relevância de cada uma depende da situação a que é aplicada, e não das palavras em si. Neste sentido, acho que seria vazio citar exemplos fora de contexto – mas, para os que se interessarem em ampliar o repertório, o Tiago Matos da Perestroika (escola de criatividade de Porto Alegre) posta regularmente vídeos no YouTube, alguns compilando frases motivacionais; o vídeo “35 Conselhos para quem quer ser um Empreendedor Criativo” é um bom exemplo. Também no YouTube, o canal da Endeavor Brasil (instituição de apoio ao empreendedorismo de alto impacto) possui vídeos interessantes com frases e cases inspiradores de empresários brasileiros e de outros países.

 

 

(Lucas Lattari) Renato, muitos fãs questionaram a vitória da Ana Moser, já que nas últimas tarefas individuais, o Amon foi vitorioso e a Ana ficou em último lugar 2 vezes. Não apenas isso, ele não perdeu como líder e foi superior a Ana em número de vitórias. Você concordaria que o desempenho do Amon foi superior ao da Ana e que ele perdeu pela falta de equilíbrio emocional? O que mais fez valer a sua indicação pela vitória dela?

 

​​(Renato Santos) ​​É fato que o desempenho do Amon nas duas últimas tarefas foi superior ao dos demais concorrentes, inclusive a Ana – mas não acho que isso justifique por si uma alegação de superioridade dele sobre os outros dois.

Na verdade, também houve critérios quantitativos a partir dos quais o desempenho da Ana foi superior (ela sofreu 4 derrotas nas tarefas, enquanto Amon e Christiano sofreram 5; e foi indicada 3 vezes à segunda parte da sala de reunião, enquanto Amon e Christiano foram levados 5 vezes) – e menciono isso aqui apenas para ilustrar minha opinião de que, no quesito Performance, os três competidores estavam muito próximos, já que também há critérios pelos quais o Christiano foi superior. O que nos leva aos outros dois critérios que usei para avaliar os Aprendizes, conforme mencionarei em uma questão abaixo – o Perfil e a Personalidade.

A princípio parecem similares, mas entendo os dois critérios por lógicas diferentes: o Perfil se relaciona ao estilo de trabalho e formação / experiência prévia (ou aproveitamento das experiências anteriores no próprio programa); e a Personalidade, à capacidade e autocontrole ao se posicionar, argumentar e reagir às situações colocadas – especialmente na sala de reunião.

No critério Perfil, ainda acho que as diferenças são pouco importantes, mas neste caso eu apontaria o Christiano como o melhor finalista, em razão de motivos que expus ao fazer minha indicação ao Roberto na sala de reunião final. Na minha percepção, o que desequilibrou a balança a favor da Ana de forma incontestável foi a Personalidade, já que tanto Amon quando Christiano tiveram momentos em que este critério foi abalado, como aprofundarei abaixo ao responder a questão sobre a conversa com o Amon.

 

(Diego Brandão Nunes) Renato, muitos fãs do programa (me incluo neles) admiram as suas colocações e avaliações pertinentes nas mais diferentes situações, cada vez mais tem se tornado claro o nível de qualidade e excelência que você busca nos aprendizes. Sendo considerado às vezes tão firme quanto o Justus e algumas vezes até mais. Como você vê isso? Acha que realmente o seu olhar para os aprendizes tem se tornado mais exigente? Obrigado e parabéns pelo seu trabalho.

 

​​(Renato Santos) ​​Obrigado pelo elogio!

Na verdade acho que, ao participar pela segunda temporada, eu havia acumulado um aprendizado com a anterior – e isso me possibilitou ser mais objetivo. Ao mesmo tempo, também me senti mais à vontade, e isso fez com que eu me soltasse mais ao comentar e intervir na sala de reunião.

Tenho grande respeito por todos os Aprendizes que conheci nas duas temporadas, e muitas vezes me admiro ao pensar que, no lugar deles, seria muito difícil obter os mesmos resultados. Por isso, não acho que tenha me tornado mais exigente, apenas tenha estado mais concentrado no resultado final do trabalho que eles entregaram.

Roberto é o tomador de decisão – nesta posição, precisa refletir com mais cuidado e precaução para se assegurar da melhor escolha. No meu caso, o papel foi bem menos complexo - e é natural que conselheiros ou consultores tenham opiniões mais enfáticas, justamente porque estão buscando influenciar quem decide. Por isso, entendo que a comparação com o Roberto não seja adequada, já que na minha posição tive bem menos responsabilidades que ele, e não tive o dever de ser imparcial.

 

(Endrik Raphael) Renato, desempenho ou perfil?

 

​​​​(Renato Santos) ​​Sem dúvida, ambos. Selecionar pessoas em situações que permitem observar os dois critérios – como é o caso no Aprendiz – sem considerá-los igualmente seria uma irresponsabilidade.

Por isso, acredito que a discussão "desempenho x perfil" seja incompleta. Há uma anedota corporativa que diz que perfil significa “prometer sem cumprir”, enquanto desempenho seria “cumprir sem prometer” – ou seja, para prometer e cumprir é preciso integrar as duas qualidades, associando um indivíduo bem formado e com estilo de trabalho eficaz (perfil) com entregas consistentes e precisas (desempenho). Este será um profissional realmente valioso para qualquer negócio.

No Aprendiz, aos dois critérios podemos somar ainda a personalidade, aqui entendida como a forma, firmeza e clareza de argumentação (e por isso diferente do perfil, que aqui traduz formação e estilo de trabalho). Ainda considerando o Aprendiz, pode-se afirmar que esta capacidade está associada à atuação durante as salas de reunião, quando os participantes são questionados e intencionalmente pressionados, às vezes contra os próprios colegas.

Assim, trocando “desempenho” pelo sinônimo, acredito que o bom resultado no Aprendiz seja função de 3 “Ps”: Performance, Perfil e Personalidade.

(Elisangela Moreira) Renato, na sua visão de empreendedor de sucesso qual a característica mais importante para se fechar um grande negócio, e ao longo do programa qual dos participantes deixou mais a desejar nesse quesito?

 

​​(Renato Santos) Esta é uma pergunta difícil, porque não acredito que apenas uma característica seja determinante. Minha opinião é que fechar ou gerir um grande negócio demanda diversas capacidades empreendedoras, que sintetizarão as habilidades de planejamento, de realização e de influência – esta última inclui também as capacidades de liderança e negociação.

O americano David McClelland (um dos pais da psicologia organizacional) sintetizou 10 características de comportamento empreendedor a partir de uma pesquisa com empresários de sucesso em todo o mundo: essas características são trabalhadas no programa Empretec da UNCTAD (ONU), presente em 34 países e no Brasil desenvolvido pelo SEBRAE – do qual sou consultor e de cuja última versão brasileira e internacional sou também um dos autores.

Mas, para não deixar a pergunta sem resposta, acredito que a característica mais importante para fechar um grande negócio seja a autoconfiança. Observá-la é tarefa complexa, porque as pessoas frequentemente a confundem com arrogância. A primeira se traduz em serenidade e consciência dos próprios objetivos e habilidades; a segunda se traduz em insegurança e na vontade de “ganhar no grito”. Acho que todos os concorrentes demonstraram autoconfiança em determinados momentos (quando a tarefa era coerente com suas habilidades); e alguns demonstraram arrogância quando quiseram prevalecer, mesmo sem base para tanto. Ao invés de citar um exemplo negativo, prefiro ficar com o lado positivo desta característica, que enxerguei na vencedora Ana Moser.

 

(Julio Silveira) Renato, como foi a conversa com o Amon? Ele realmente iria deixar o programa? Como conseguiu convencê-lo? Parabéns pela atitude!!

 

​​(Renato Santos) Agradeço e fico lisonjeado com o cumprimento, mas na verdade não acredito que o Amon desistiria, mesmo que não tivéssemos conversado.

Entendo que ele passou por um momento de hesitação e, em uma reação normal e compreensível, quis ficar sozinho por algum tempo – o que acabou potencializando sua angústia. Supondo que eu não tivesse atendido o pedido e Amon decidisse ir em frente, provavelmente comunicaria a decisão à sua equipe, e acredito que seria encorajado a voltar atrás pelos próprios companheiros. Em particular, acho que o Raul não o permitiria desistir – menciono isso pela energia que colocou na tarefa, algo que não presenciei nem mesmo quando liderou a Fênix.

Meu papel ao conversar com o Amon foi quase que exclusivamente o de escutá-lo. Por si só, isso já é um redutor de tensão que funciona com quase todas as pessoas. Enquanto falava, o próprio Amon estruturou melhor seus pensamentos e concluiu que não estava desistindo, apenas passando por um momento de tensão emocional. Pouco antes, ele havia conversado com a mãe e sido informado do nascimento do sobrinho. Esses fatos não foram a causa, mas apenas o estopim para que a tensão acumulada no programa transbordasse. Me lembrei das situações de tensão que já enfrentei – todos nós as temos, aliás – e disse a ele a frase comentada acima, que sempre me inspira e o inspirou também.

Apesar disso, é claro que este momento teve um custo para o Amon. Não no sentido de ele não merecer mais ganhar por ter hesitado, como alguns espectadores comentaram – quem pode se dizer imune à hesitação? – mas no sentido de ter exposto o próprio esgotamento emocional. Isso é um fator que tem peso na comparação entre os candidatos, e que nem Ana Moser e nem Christiano Cochrane demonstraram. Conforme mencionei acima, este não foi o ponto principal que considerei na minha recomendação, mas sem dúvida não pude deixar de notá-lo (assim como não pude ignorar as dificuldades de relacionamento do Christiano com Nahim e Raul, por exemplo).

 

(Vinícius D'Ávila) Renato, nas 5 últimas temporadas, as vencedoras foram mulheres. Acha que é coincidência ou as mulheres tem um perfil mais competitivo que os homens, fazendo com que se saiam melhor no programa?

 

​​(Renato Santos) Acredito que a predominância de mulheres entre as vencedoras reflete a “feminilização” do ambiente empresarial. O comentário é a um só tempo honesto e irônico, porque as habilidades tipicamente femininas de negociação, flexibilidade e multitasking são cada vez mais demandadas no mundo corporativo – que, por outro lado, nem de longe se tornou mais acolhedor ou maternal.

A ironia se justifica porque sempre acreditei que é possível a qualquer dos sexos desenvolver qualidades e vícios normalmente associados ao outro, o que torna a questão de gênero irrelevante no ambiente de trabalho, a não ser pelo desafio da superação dos preconceitos.

Em defesa deste argumento, minha opinião é de que a prevalência feminina entre os vencedores não é tão evidente e talvez não tenha relevância estatística: são 6 x 4 em 10 edições, uma diferença aceitável e dentro de um desvio razoável.

 

(Fabio Teles Gardenal) Olá Renato, você disse - em um dos Hangouts - que nessa edição das celebridades, 2 candidatos tinham um perfil adequado para alcançar o sucesso também no universo corporativo. Como o programa ainda estava no ar, você se reservou ao direito de não dizer quem. Agora que a edição já acabou, quem eram esses participantes?

 

​​​​(Renato Santos)  ​​Esta questão gerou alguma curiosidade, e foi respondida em um tópico da comunidade Coelhocratas no Facebook. Minha opinião permanece a mesma, e por isso tomei a liberdade de pedir à Rafaella Oliveira que reproduzisse a resposta aqui.

 

​Quando fiz o comentário, se não me engano comparávamos o perfil dos participantes do Aprendiz Celebridades com o de outros participantes, como os do Retorno. O que mencionei foi que havia dois participantes atuais que certamente, na minha opinião, teriam perfil para atuar no ambiente corporativo. Isso não significa que são melhores ou piores que os demais, apenas que reúnem os atributos que as empresas normalmente valorizam. Para mim, esses aprendizes foram o Pedro Nercessian e a Ana Moser - a pergunta foi feita muito antes da Final. Confirmei depois que Pedro já atua neste ambiente hoje, pois é produtor de eventos bem-sucedido em parceria com o SENAC no Rio de Janeiro, em empresa com outros dois sócios. Ana também já atua no mundo corporativo, pois sua ONG tem várias parcerias com organizações e empresas de grande porte, incluindo o UNICEF, por exemplo. 

 

(Angela Vauthier) Renato, nessa edição e na edição anterior o seu voto foi para o vencedor do programa. Você acha que sua indicação influenciou a decisão do RJ ou ele já tem a decisão definida independente da indicação do conselheiro?

 

​​(Renato Santos) ​Um dos benefícios de trabalhar no Aprendiz foi a oportunidade de aprender – sem trocadilho – com um dos grandes players corporativos do Brasil. Sempre busquei entender e estudar a forma como o Roberto decide e a lógica do seu raciocínio, e acho que a resposta a seguir talvez seja parte desse aprendizado.

Todos nós temos nossas inclinações e preferências. Imagino que o Roberto não seja diferente, mas presenciei várias vezes em nossos debates antes das salas de reunião, e posteriormente durante a gravação, o que interpretei como ação deliberada do Roberto em adiar sua decisão ao máximo, não por indecisão mas sim para ter certeza de conhecer todos os fatos antes de escolher.

Também tive a impressão de que o Roberto por vezes começou a sala de reunião com uma inclinação e a alterou durante o curso da discussão (ele mesmo sempre diz que a performance na sala é um fator de análise importante sobre os Aprendizes).

Finalmente houve situações em que, mesmo depois de ouvir as recomendações dos Conselheiros e após a argumentação final dos participantes, Roberto perguntou se gostaríamos de alterar nossos conselhos – assegurando também a nós a prerrogativa de só expressar a opinião depois de conhecer todas as variáveis da situação.

Acho que esses pontos demonstram a importância de não decidir com afobação e ter certeza do domínio dos fatos antes de fazer uma escolha. Parece simples, mas a maior parte dos empresários falha neste quesito e acaba tomando decisões precipitadas e infelizes. O convívio com ele me ajudou a reforçar a importância de manter o sangue-frio antes de decidir e não “atropelar” o amadurecimento da decisão.

Dito isso, acredito ser claro que a minha indicação influenciou a decisão do Roberto. Não só a minha: também a do Cacá e a do terceiro conselheiro. Mais do que isso, influenciaram o Roberto os resultados das equipes, a argumentação na sala de reunião e a convicção e firmeza pessoais demonstrados pelos participantes em sua própria defesa.

Todos esses fatores certamente foram importantes para iluminar as situações a partir de ângulos de visão diferentes, e chamar a atenção dele para aspectos que considerávamos relevantes. Mas não acho que os valores e critérios de decisão do Roberto tenham sido afetados a qualquer momento por nós, pelos próprios Aprendizes ou pela opinião do público.

 

 

(Amon Scholles) Eu tenho uma pergunta!! Renato, na tua visão qual foi o ponto fraco do Cristiano, da Ana Moser e do Amon Lima? E qual foi o ponto mais forte de cada um dos 3 finalistas?

 

​​(Renato Santos) ​​É muito interessante responder a uma pergunta do próprio Amon, com quem tive a oportunidade de conversar apenas uma vez depois da noite final do programa.

Ao analisar a Performance, Perfil e Personalidade dos três durante as 15 tarefas, primeiro é importante reconhecer que eles realmente foram os participantes que mais se destacaram – e o fato de terem superado outros 12 competidores, às vezes mais fortes em um ou outro critério isoladamente, demonstra que todos estavam à altura da vitória nesta edição. Mas claro, eram pessoas diferentes com combinações diferentes entre os três critérios que avaliei.

Acho que o Christiano tinha o Perfil mais forte, baseado na grande inteligência e cultura geral, agilidade de raciocínio e sagacidade. No entanto, para fazer jus ao ditado de que às vezes as bênçãos se tornam maldições, percebi uma certa impaciência com outros colegas não tão agudos, que somada ao protagonismo pessoal que ele tem, fizeram com que tivesse fortes conflitos dentro e fora da equipe. Devo ressaltar que nunca percebi arrogância no seu comportamento, e também nunca achei nem que ele ou Amon fizessem uso excessivo dos seus contatos (respectivamente, Marília Gabriela e Família Lima). Também tive a oportunidade de conversar com ele depois do programa, e fiquei com ótima impressão do seu temperamento: Christiano é divertido e com frequência ri de si mesmo, o que pessoas arrogantes não fazem.

Mencionei acima que as performances foram similares, mas devido à “arrancada” final, entendo que seja justo atribuir ao Amon o melhor resultado neste quesito. A Performance é o critério mais visível aos olhos do espectador do Aprendiz, já que é literal e quase sempre, quantitativa – enquanto os outros dois são menos óbvios e mais subjetivos. Acho que a comoção dos torcedores do Amon ao final do programa talvez se justifique por isso. Este é, no entanto, apenas um dos critérios que forma o tripé de avaliação no qual me apoiei para aconselhar o Roberto – e a diferença não foi tão significativa, como já ilustrei em outra questão, além do que no longo prazo a Perfomance não se sustenta sem perfis e personalidades (especialmente do líder) igualmente fortes, o que acho que não ficou tão evidente no Amon, especialmente quando veio à tona o desgaste pessoal que sofreu ao longo do programa.

E finalmente, temos a Personalidade. Já mencionei acima que considero os competidores muito próximos entre si em todos os critérios, exceto neste – em que, na minha visão, Ana Moser realmente demonstrou clara superioridade. Isso não é uma percepção isolada: os próprios finalistas demonstraram o valor da Ana para suas equipes ao trazê-la para “virar o jogo” de derrotas anteriores. Presenciei seu equilíbrio e serenidade acalmarem discussões acaloradas dentro da Next – em particular, antes da saída do Nahim, já que a equipe alcançou notável sinergia depois disso – e organizarem o ambiente de certa forma “caótico” da Fênix quando ela mudou temporariamente de time. Além disso, de forma contrária à opinião geral dos espectadores, acho que ela soube lidar bem com a pressão recebida das colegas de grupo na tarefa final (para dividir o prêmio em caso de vitória). Ana também não se abalou nem quando teve péssimo resultado na penúltima tarefa (administração da pizzaria) e nem quando, em plena tarefa final, perdeu um membro da sua equipe e teve a performance de outro afetada por razões de força maior – Alexia por uma questão familiar e Beth por motivos de saúde.​​

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